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Informação | A Semana Crítica

CONFIANÇA NO DESIGN

António Modesto Nunes comenta a imagem do vinho.

Por António  Modesto Nunes*

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Recorremos em tempos aos argumentos (insuspeitos) do Relatório Porter para afirmarmos o ainda pouco profissionalismo da imagem dos vinhos em Portugal.

Nunca será de mais voltar ao assunto na tentativa de se poder inverter a situação. Todos reconhecemos que a qualidade do vinho em Portugal evoluiu muito nas últimas décadas.

Contudo, esse resultado não foi acompanhado pelo seu design de comunicação. E porquê?

Fundamentalmente, porque a confiança dos produtores no saber dos profissionais do design não é a mesma que na viticultura ou na enologia. Ainda que a sua formação seja semelhante em tempo, exigência e rigor.

Tal como apontava o referido relatório, os serviços de design em Portugal são muito negligenciados, entregues a pessoas menos qualificadas, feitos por familiares e amigos e, quantas vezes, pelos próprios proprietários. Seja o presidente de uma Adega Cooperativa, seja um jovem e dinâmico empresário/produtor, a atitude e a responsabilidade perante este problema tem sido, infelizmente, semelhante.

(A título de exemplo, é frequente encontrarmos, numa das maiores empresas de impressão de rótulos, produtores sentados em frente a ecrãs de computador, ao lado de técnicos de informática, dando indicações, escolhendo cores, fazendo os seus rótulos na hora!)

Por outro lado, mesmo quando recorrem a bons profissionais de design, a grande maioria dos produtores (ou dos agentes responsáveis pela imagem do vinho), não confia nas soluções dos designers e exige ter sempre a "última palavra".

E a última palavra — que se justifica enquanto aprovação — é, normalmente, um conjunto de alterações ao projecto finalizado, alterações essas que o desvirtuam: a substituição de uma cor por outra "mais apelativa", "mais discreta" ou a "que a esposa recomenda"; o aumento do corpo das letras, que não precisam de o ser, ou a mudança para um tipo mais fantasioso; a inclusão de mais um texto redundante ou de um slogan fora de moda; a substituição da imagem simbólica por outra mais literal... Quando não solicitam "copiar discretamente" a solução do rótulo do vinho concorrente, que vende mais.

Um produtor ao entender a estratégia do negócio e da comunicação dos vinhos como um prolongamento da sua pessoa, do seu gosto e do seu orgulho individualista – de quem tudo pode e decide –, está a esquecer o mais importante: a competência!

Competência que é maioritariamente técnica. Mas também, e porque o mercado assim o exige, esquece a adequação ao gosto dos tempos, dos consumidores, do que estes estarão dispostos a pagar e aquilo que os possa surpreender.

Esta situação mostra, acima de tudo, como ainda não se entende realmente o que é o design. O design é um serviço. Como tal, objectiva o sucesso do produto que trabalha e, consequentemente, o sucesso de quem serve.

 **António Modesto Nunes é amador (aquele que gosta) de vinhos e profissional de design de comunicação visual. Trabalha no seu próprio atelier e é professor universitário de design gráfico.

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