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Informação | Entrevista/Reportagem

UMA PROVA HISTÓRICA: DE 1815 a 1851

Será difícil encontrar uma forma mais simbólica e ao mesmo tempo emotiva de celebrar a vida e a obra de Dona Antónia Adelaide Ferreira do que provar alguns dos vinhos mais raros e preciosos do seu legado.

03-10-2011 16:30 Fotos: MMS/JdV

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A par de um fabuloso património material e ético, a Ferreirinha deixou aos vindouros uma garrafeira de valor incalculável com as suas mais consagradas colheitas de vinho do Porto, desde logo a de 1815 (a mais antiga existente nas caves),a par de muitas outras colheitas de eleição, como as de 1830, 1834, 1840, 1847 e 1851, que também estiveram em prova.

Para a Administração da Sogrape Vinhos, trata-se um ponto alto muito especial do programa comemorativo dos 200 anos do nascimento de Dona Antónia: a reunião de um grupo restrito de amigos e profissionais da Comunicação, sem dúvida os melhores apreciadores do significado pleno deste evento abrilhantado por seis obras de arte inesquecíveis e reveladoras dos segredos dos tempos em que foram criadas.

Em prova estiveram vinhos com história, fruto de uma relação estreita entre o Homem e a Natureza, cujos sabores e aromas foram refinados por mãos sábias e longos anos passados na tranquilidade das caves e garrafeiras até atingirem o equilíbrio e a complexidade que hoje nos surpreendem e emocionam até à paixão.   

Como escreve Gaspar Martins Pereira, um dos biógrafos de Dona Antónia, estamos perante “vinhos feitos para durar, aspirando à eternidade, como toda a obra de arte da criação humana…”


VINTAGE 1815

Notas de prova – Estamos perante o famoso Vintage de Waterloo! Aroma intenso a especiarias (canela, pimenta e gengibre), notas de madeiras exóticas, iodo e cera. Na boca é vivo, com boa acidez equilibrada pelos frutos secos, possuindo um final equilibrado e persistente. Um vinho fascinante!

Nota histórica – É o mais antigo Vinho do Porto existente nas Caves da Ferreira – Dona Antónia tinha então apenas 4 anos de idade – e só isso bastaria para fazer da sua prova um momento inolvidável. Mas é também um vinho marcante no processo da afirmação da presença da família Ferreira, principalmente através dos irmãos José e António Bernardo, da Régua, no mercado britânico, que já então vendiam algumas centenas de pipas de Vinho do Porto para Inglaterra. Nesse mesmo ano, a família Ferreira iniciaria contactos com Joaquim Máximo Virginiano, residente em Londres, para que assumisse aí a representação dos seus vinhos.

Os ingleses, aliás, baptizariam esta colheita de “Waterloo Port”, precisamente porque foi o ano em que os seus exércitos puseram termo ao império napoleónico, na célebre batalha de Waterloo.   


VINTAGE 1830

Notas de prova – Grande riqueza aromática, notas evidentes de amêndoas e pinhões. A boca apresenta ainda um bom equilíbrio, com notas apimentadas. Muito bom.

Nota histórica – Foi uma vindima excelente, em particular na Quinta das Figueiras, que António Bernardo Ferreira comprara em 1823 e que transformara numa das melhores explorações do Douro. Precisamente em 1830, António Bernardo rebaptizou-a com o nome de “Quinta do Vesúvio”.

A afirmação social da família Ferreira estendia-se além-fronteiras. Neste ano, o príncipe de Hesse, de visita a Portugal, hospedou-se em casa de António Bernardo Ferreira, que entretanto entrara no rendoso Contrato do Tabaco com 4 contos, uma fortuna para esse tempo.

No País, dominado pelo Miguelismo, prenunciavam-se novos afrontamentos, após a constituição do Conselho de Regência Liberal na Ilha Terceira, nomeado por D. Pedro e presidido pelo Marquês de Palmela.     


VINTAGE 1834

Notas de prova – Este vinho apresenta algumas características interessantes. O aroma tem notas de frutos secos e madeira e, na boca, apresenta-se ainda com algum corpo e com notas empireumáticas que já dominam o seu final, longo para a idade e muito limpo.

Nota histórica – Vintage famoso, muito fino, um dos melhores do século XIX. Este vinho foi protagonista de um episódio dramático mas fascinante: em 1987, o explorador sueco Auguste Andrée, juntamente com dois companheiros, decidiu atravessar o Pólo Norte num balão. A 14 de Julho, o balão caiu no Árctico, sabendo-se, pelos diários posteriormente encontrados, que a 27 de Setembro ainda estavam vivos e fizeram um banquete numa placa de gelo flutuante. O prato principal foi foca e peito de gaivota, mas o ponto do festim terá sido uma garrafa de Porto Vintage “D. Antónia Ferreira” de 1834 que lhe fora oferecida pelo Rei da Suécia. Infelizmente, os aventureiros não sobreviveram para contar a sua experiência, mas uma expedição norueguesa encontrou, 33 anos depois, os seus corpos, bem como os seus diários e algum material fotográfico.

Em Outubro de 1834 Dona Antónia Adelaide Ferreira casa-se com o filho homónimo de António Bernardo Ferreira na capela da Quinta de Travassos, em Loureiro. Ambos filhos únicos, os noivos viriam a herdar e a concentrar a fortuna dos dois ramos mais fortes da família, facto que se revelaria decisivo para a consolidação, sob a posterior direcção de D. Antónia, daquele que viria a ser o império Ferreira.


VINTAGE 1840

Notas de prova – Aroma intenso, com notas empireumáticas complexadas de frutas secas (amêndoa e figo seco) e especiarias. Sobressai neste vinho a sua complexidade. Na boca é essencialmente dominado pelos frutos secos, possuindo um final equilibrado e persistente.

Nota histórica – Este ano de 1840 deu grandes vinhos, “geralmente puros e secos”, muito finos, segundo a opinião do Barão de Forrester. No Porto, António Bernardo Ferreira II, o empreendedor e algo excêntrico marido de Dona Antónia, iniciava a construção de um faustoso palácio na Trindade.

Nas vésperas da grave crise que atingiu o sector do vinho do Porto entre 1841 e 1843, António Bernardo acumulava stocks dos melhores vinhos, investia em novas propriedades e modernos equipamentos, ao mesmo tempo que se lançava noutros empreendimentos e negócios de vulto, desde as estradas à navegação a vapor, do jogo de acções em Londres à actividade bancária.   


VINTAGE 1847

Notas de prova – Amarelo-palha, aromas a especiarias com um bouquet vanílico, ligeiramente avernizado. Mantém-se ainda medianamente doce, com toques de éter e palha velha.

Nota histórica – O ano de 1847 deu à Ferreira aquele que foi por muitos considerado o melhor vinho do Porto deste período. Michael Broadbent não teve mesmo dúvidas em afirmar que se trata do vinho mais doce alguma vez produzido pela Casa Ferreira.

Entretanto, após a morte do seu marido, em 1844, passados três anos, em 1847, Dona Antónia assegura, definitivamente, o controlo sobre o negócio da empresa e arranca, com surpreendente energia, para a sua consolidação.


VINTAGE 1851

Notas de prova – Aroma muito complexo, firme, ainda com alguma fruta compotada e notas evidentes de cera, gengibre e um ligeiro vinagrinho. Boca marcada ainda por tanino e excelente acidez. Final intenso e longo, com notas claras de gengibre.

Nota histórica – Conhecido como “Great Exhibition Vintage”, o Vinho do Porto da colheita deste ano revelou-se excelente, muito fino, comparável, segundo Forrester, à novidade de 1820. Michael Broadbent, que o provou em 1975, considerou-o “the most magnificient old port I have ever drunk”.

Dona Antónia, que enviuvara em 1844, continuava a fazer grandes investimentos nas suas quintas do Douro e no Porto. Aos 40 anos, possuía uma das mais fabulosas fortunas do sector do vinho do Porto.

Em 1854, um episódio rocambolesco envolveria o próprio chefe do Governo, o duque de Saldanha, na tentativa de rapto da filha de Dona Antónia, Maria da Assunção, para casar com o seu filho.    

A prova foi realizada nas Caves Ferreirinha na cidade de Gaia e conduzipa pelo enólogo Luís Sottomayor.
 

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