Banner Principal - Jornal de Vinhos
Português English Castellano


Informação | A Semana Crítica

A REFLEXÃO DA PROVA

Bruno Mendes, enófilo, tece algumas considerações sobre a prova de vinhos e lança algumas questões pertinentes.

2013-10-01

por BRUNO MENDES, enófilo

Bem-disposto, depois de um bom dia de praia, o Encruzado degustado ao fim da tarde, a acompanhar um bom livro e umas amêijoas bem preparadas, portou-se lindamente, deixando a indicação de um dos melhores vinhos brancos provados no último ano.

Encruzado este que, ainda há uns dias atrás, não teria merecido mais do que um suficiente quando o bebi no fim de um dia de trabalho intenso e com muito stress e cansaço à mistura. Mais ou menos profissionais ou melhor ou pior informados que sejam os apreciadores de vinho, dificilmente alguém poderá dizer que, em maior ou menor escala, esta é uma situação totalmente estranha ou desconhecido.

É aqui que começa esta reflexão: será que esta mesma variância ou falta de repetibilidade na prova tem o mesmo impacto quando a partilhamos com os amigos e familiares, quando a divulgamos num blog na internet ou quando é publicado em imprensa especializada? Creio que não!

Assistimos, em Portugal, nos últimos anos a um aumento exponencial de interessados pela vinha, pela prova, pelos processos de vinificação, em suma, pelo vinho em si e por tudo o que o rodeia, o que levou a que a imprensa associada ao tema tenha tido cada vez maior mercado e se tenha multiplicado em diversas edições e diversificado os seus meios de transmissão, isto tem também levado a que o número de interessados possa aumentar e assim criando um ciclo de imenso interesse para os apreciadores, para a economia vínica e, especialmente, para o aumento intrínseco da qualidade média da nossa produção, o que nos tem levado a um maior reconhecimento externo.

Esta espiral positiva baseada na facilidade de comunicação e de acesso a esta, acarreta, para lá um conjunto enorme de vantagens, alguns inconvenientes que cabe aos mesmos que fazem com que cresça e se transforme no motor do mundo vínico apresentar e garantir meios e ferramentas que garantam a diminuição dos seus efeitos nocivos.

O maior exercício realizado nas diversas publicações é a avaliação quantitativa de um vinho, pode variar numa escala de 0 a 100 ou de 0 a 20, pode ter um cunho pessoal ou resultar de uma equipa de provadores, pode ser executada com regras de prova mais estreitas ou ser mais liberal, mas tem certamente impacto significativo na opinião e na orientação de compra/investimento de quem consome intensamente estes produtos.

A questão torna-se inevitável: que grau de confiança podem os leitores terem nas classificações publicadas? Mesmo entendendo as notas como opinião pessoal do provador poderemos estar certos que o mesmo provador dará a mesma nota ao mesmo vinho provado em dias e situações diferentes? Podemos estar seguros que consumindo a mesma revista ou jornal estas edições garantem reprodutibilidade nas análises quantitativas? Não haverá possibilidade de um provador (ou equipa de provadores) dar uma nota má e outro da mesma publicação (ou outra equipa) uma nota muito boa ao mesmo vinho? E se assim o é, e estamos

cientes disso, faz sentido classificar um vinho por valores quantitativos com precisão tal elevado com as actuais? Será que não se está a influenciar em demasia o mercado do consumo com estas classificações maximizando e minimizando mercados sem que se tenha garantido condições de fiabilidade na medição?  

As questões são muitas e cada vez mais pertinentes mas, no fundo, não deveremos entender que temos um produto – vinho – e um sistema de medição – provadores – que devem seguir um método para medir (classificar) o produto garantindo, pelo meio, níveis aceitáveis de repetibilidade (mesmo vinho e mesmo provador) e reprodutibilidade (nos diversos provadores)? creio que sim! E se o método e as condições de prova são cada vez mais semelhantes, já as questões de repetibilidade e reprodutibilidade (R&R) estão, até hoje, um pouco afastadas destas análises.

Sabemos das variações naturais de um vinho, da sua evolução em garrafa, da variação de garrafa para garrafa, da influência da rolha, das condições de conservação,... mas notemos: numa análise rápida a diversas classificações on-line verifica-se que 90% dos vinhos são classificados em 20 a 25% da gama de classificação (numa escala de 0-20 significa que 90% dos vinhos têm notas entre 14 e 18); verifica-se que um mesmo vinho tem classificações que podem variar até 1.5 valores dentro da mesma publicação e que pode variar 2 a 3 valores se se variar de publicação, ou seja, dentro dos 25% que se ocupa da escala um mesmo vinho pode variar em 15%, isto é mais de metade!

Se partirmos do principio que a curiosidade do consumidor sobre um vinho (ou colheita) que não conhece, aumenta ou diminui função da sua classificação (como exemplo, um vinho que custa 5€ no mercado e que tem uma classificação de 17 valores é de compra obrigatória na próxima oportunidade mas se o mesmo tiver classificação de 15 dificilmente se vai prov ar ou na melhor das hipóteses vai para um lugar muito abaixo na lista de prioridades de compra) não poderemos descurar, para nosso bem e para bem da boa regulação do mercado, as garantias de validação do sistema de prova!

Imaginamos as consequências de um radar de transito medir velocidade dependente da cor de um carro ou do nível de luminosidade, ou se uma balança de um consultório de pediatria pudesse medir para 2 bebés com pesos iguais diferenças de 2kg, ou se um medidor de tensão arterial pudesse variar, para mesma situação, de 12 a 17? É por estas situações, que muitas das vezes não colocamos em causa, que se torna obrigatório conhecer o sistema de medição e as suas capacidades para que com elas se possa concluir com segurança sobre a análise do resultado, o que muitas das vezes chamamos erros de leitura associado ao medidor.

Em estatística um estudo R&R (repetibilidade e reprodutibilidade) de um atributo ordinal (uma classificação com ordem especifica, p.e. de 0 a 100) deve ser capaz de responder às seguintes questões:

    1. Será o processo de classificação capaz em termos de repetibilidade e reprodutibilidade?

    2. Será que o procedimento de classificação actualmente utilizado é o mais adequado ou deverá sofres revisões?

    3. Estão todos os avaliadores com o mesmo grau de formação e conhecimento para classificar de forma consistente os produtos a avaliar?

    4. Existem realmente padrões nos produtos a classificar que justifiquem toda a escala de classificação?

Quatro questões que podem suportar as respostas a todas as dúvidas que, nunca como hoje, se colocaram tantas e tantas vezes. Saberemos se está o mundo vínico propenso a estas avaliações? Desafio lançado, música aos tocadores!

 

Imagem associada


JORNAL DE VINHOS 2008 v. 2 POWERED BY VBWORKS.NET