A década de 1960 foi marcante para as cooperativas portuguesas. Depois de um tempo algo favorável, com a presença e incentivo de António Sérgio, com a publicação do Boletim Cooperativista e com a criação de organizações federativas, as cooperativas assistiram nesse idos a um crescendo repressivo por parte do governo.

Os anos 60 encontram as cooperativas agrícolas, em especial as cooperativas leiteiras e as adegas cooperativas, com um desenvolvimento que responde de algum modo apenas às necessidades dos produtores e dos consumidores. A situação deveu-se a forte apoio do Estado, todavia trouxe consigo difíceis relações com os organismos corporativos da mesma área. Criou-se um clima de má vontade contra as cooperativas agrícolas e, simultaneamente, uma intervenção administrativa, inconstitucional e abusiva, na regulamentação, constituição e funcionamento das cooperativas, causando maior dependência das autoridades, e sujeição a novas e mais pesadas obrigações contributivas.

Foi neste enquado socio-político que no ano de 1971, seis dezenas de viticultores alentejanos se juntaram com um objetivo de vinificar e comercializar o seu vinho fundando aquela que vem a ser a Cooperativa Cooperativa Agricola de Reguengos de Monsaraz – CARMIM.

O adegueiro José Simões não esteve presente nesse acto de fundação, mas conhece uma boa parte da história desta casa onde trabalhou durante 39 anos e conta:

“Na altura das vindimas chegava a ficar 45 horas sem ir a casa e morava ali ao lado. Não me podia encostar a nada, senão adormecia” afirma, e só fazia pausas, quando a mulher lhe levava algo para comer. “Eram tempos diferentes, os viticultores chegavam com as uvas num dia e só conseguiam, muitas vezes, descarregar no dia seguinte”, recorda José Simões, que aos 78 anos afirma que se não tivesse vivido o que viveu, não acreditaria que teria sido assim.

O sentido de união, de apego à terra e às tradições, na ótica de “juntos seremos melhores”, fizeram com que a CARMIM ganhasse, cada vez mais engrenagem e dinâmica e adquirisse a consistência e o reconhecimento que chegou até hoje.

Por seu turno, Miguel Feijão, actual Presidente do Conselho de Administração recorda a sua longa ligação á casa: “O meu pai [Manuel Caeiro Feijão] foi o sócio nº125, quase dos primeiros. Guardo boas memórias desses tempos e é muito interessante ver a evolução da CARMIM ao longo de todos estes anos”.

Passaram 50 anos. Neste momento a CARMIM conta com perto de 900 associados e tem um volume de negócios que ronda os 20 milhões de euros, dos quais cerca de um quarto proveem da exportação.

Colocam-se os olhos no futuro, sem, no entanto, nunca esquecer os que ajudaram a construir a sua história. “Meio século de vida de uma instituição tão marcante na comunidade e com marcas e produtos com uma projeção tão sólidos, só tem sentido com uma justa homenagem aqueles que lhe dão vida, sentido e um propósito, os seus associados” afirma o Diretor Geral João Caldeira, que relativamente ao futuro acrescenta que este “aponta para uma comunidade orgulhosa do desempenho da sua cooperativa, grata por esta acrescentar valor ao fruto do seu trabalho no campo e, nesse trajeto, demonstrando um forte compromisso com a sustentabilidade e com o planeta”.

SEM ÁGUA NÂO HÁ VINHO

Se a qualidade dos vinhos que aqui se produzem são uma prioridade, a sustentabilidade do ponto de vista holístico é fundamental. Logo, encontrar uma solução para um dos maiores desafios desta da região – o acesso a água – é mais do que nunca importante.

“Do ponto de vista de acesso à água do Alqueva, a região de Reguengos de Monsaraz é uma ilha de secura, rodeada de áreas agrícolas com acesso a rega. Paradoxalmente, as belas zonas ribeirinhas do nosso concelho garantem tão somente o abastecimento de magnificas paisagens e esplendorosos pores do sol, enquanto a água para rega se tem revelado uma miragem. Esta realidade está a poucos anos de se alterar por ter sido recentemente anunciada a homologação do novo Circuito Hidráulico de Reguengos de Monsaraz e respetivo bloco de rega (fase 1), que integrará o perímetro de Alqueva. A disponibilidade de água é crítica para as fileiras da vinha e do olival da região” adverte João Caldeira.

E porque este é um tema da máxima importância, a CARMIM vai organizar já no próximo dia 30 de Março, uma conferência digital sob o tema “Água e alterações climáticas: os desafios da viticultura”. A ideia é que num final de tarde, entre as 16h30 e 18h40 se coloquem várias questões pertinentes em cima da mesa e que se retirem conclusões benéficas para um tema tão importante hoje e sempre.

OS VINHOS

Para assinalar uma data tão especial, a CARMIM apresenta dois DOC Alentejo. O Grande Reserva Branco 2019, um blend de Antão Vaz (70%) e Arinto (30%) que segundo os enólogos Rui Veladas e Tiago Garcia é “um vinho de aspeto cristalino, cor palha definida, aroma frutado com notas tropicais, frutos secos e de mel. Estruturado e untuoso num conjunto fresco intenso e complexo, com final longo e persistente”.

O Grande Reserva Tinto 2017, Alicante Bouschet (60%), Aragonez (20%) e Touriga Nacional (20%), apresenta-se como um “vinho de cor granada intenso, denso, profundo com notas de fruta preta madura, especiarias e cacau. Taninos robustos, intensidade e muita presença. Final longo e persistente a indicar uma boa longevidade”.

PVP: Grande Reserva Branco, 2019 – 29,90€

PVP: Grande Reserva Tinto, 2017 – 29,90€

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