No coração da Bairrada, entre vinhas antigas e solo argiloso que durante séculos moldou a identidade dos vinhos da região, ergue-se um projecto pessoal que devolve à tradição um lugar no presente vitivinícola português. A Adega Malápio, localizada em Aguada de Baixo (Águeda), é hoje uma interpretação contemporânea do vinho de talha, técnica ancestral de vinificação que, apesar de quase ter desaparecido, tem mais destaque no Alentejo.

O projecto nasce da persistência de Romeu Jorge Pinheiro Martins, natural das aldeias de Barrô, Aguada de Baixo e Aguada de Cima. Nascido na África do Sul, veio ainda criança para a Bairrada e cresceu sob o ensinamento do avô Aristides, mestre ceramista e vitivinicultor que lhe transmitiu o respeito pelo barro, pelas vinhas e pelas tradições locais. Motivado pelo sonho de recriar o “tinto clarinho” do avô, conhecido como "palheto", Romeu dedicou-se à recuperação de vinhas centenárias e à reconstrução da antiga adega familiar, reerguendo paredes de adobe e adequando talhas centenárias para receber novamente mosto e vinho.

A concretização técnica do projecto contou com o apoio do Professor Virgílio Loureiro, que aceitou acompanhar Romeu com conselhos práticos e orientação metodológica ao longo da vindima e fermentação. A colaboração deu-lhe confiança para dominar os desafios de uma vinificação em talha, onde a fermentação espontânea, a baixa intervenção e a proteção contra o oxigénio assumem um papel central.

A Adega Malápio produz vinhos que incorporam castas tradicionais da Bairrada em “field blend”, englobando variedades brancas e tintas numa harmoniosa mistura que reflete o carácter do território. A filosofia de intervenção mínima, aliada à escolha de vinhas velhas e solos argilosos, confere aos vinhos um perfil autêntico e uma leitura sensorial que dialoga com as origens medievais desta prática.

Com este projecto, Romeu Martins devolve à Bairrada não apenas um método de vinificação — a talha — mas também uma narrativa de herança, identidade e futuro: um vinho que olha para trás com respeito, mas que, "afirma-se como um dos exemplos mais expressivos da revitalização da tradição vitícola portuguesa no século XX".