São desenhos executados na sua maioria a lápis de cera, ao longo dos últimos cinco anos.

Embora o seu carácter aparentemente documental ou retratista sobressaia à primeira vista, o que me importou foi um conjunto mais alargado de propósitos: a experiência performativa do acto de desenhar (n)um lugar sublime e único — depois no atelier, onde o registo fotográfico se tornou essencial; a expressão artística que cada desenho foi adquirindo, quer pelo seu grau de realismo (ou acabamento), quer pelo seu afastamento ou desvio poético; o domínio e adaptação da técnica do lápis de cera a diferentes escalas nos desenhos; o uso da cor, determinando ambientes cromáticos próprios do tempo/estação de cada desenho, bem como a sua expressividade… Outros propósitos, nomeadamente temáticos e referenciais, poder-se-ão observar percorrendo a exposição: a presença das grandes quintas e das suas vinhas (Murças, Crasto, Nápoles, Malvedos, Ventozelo, Cume, Bom Retiro, Aciprestes, Cidrô, Vale Meão, Ervamoira…) mas, também, o Douro menos glamoroso (das ruínas, do apeadeiro abandonado, do casebre e do atrelado); as construções que moldaram o território, onde sobressai a memória da dureza braçal (Vinha do Oratório/Quinta da Boavista, Vale do Inferno/Quinta de La Rosa) e a engenharia industrial (Barragem da Valeira, caminho de ferro); o diálogo entre a arquitectura contemporânea (Casa do Rio – Vallado, Quinta de Nápoles, piscina do Crasto) e a arquitectura popular (pombal, casa de xisto); os documentos que marcaram e marcam a região (marco pombalino, letreiros); os povoados (Régua, Covelinhas, Pinhão); a própria morfologia do terreno desenhado (desde Freixo de Espada à Cinta a Mesão Frio); o clima (as trovadas, as neblinas); as actividades ligadas ao vinho (a poda, a vindima); e o próprio rio ao longo do seu percurso (de Alpajares à Régua).

Embora se trate essencialmente de uma exposição artística de desenho, a reunião de todos estes ingredientes culturais e mostrá-los no ambiente mais adequado — o Museu do Douro — é, também, prestar homenagem ao território do Douro e às suas gentes.

António Modesto, 2026